Recomendamos o vídeo a seguir para quem quer saber o que ocorreu e o que está ocorrendo com os indígenas Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Erika Kokay é deputada federal (PT), presidenta interina da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal e fez este pronunciamento no dia 22 de outubro de 2012.
Vejam, neste link, o que podemos fazer em termos de pressão pública para que os Guarani-Kaiowá tenham a posse definitiva de suas terras:
Pdf com informações gerais sobre os guarani (língua, crenças, dados demográficos, localização, histórico de conflitos, situação atual, indicação de sítios da web), neste link.
É comovente o agradecimento dos líderes Guarani-Kaiowá a todos os que adotaram o nome das etnias em seus perfis nas redes, em apoio à luta desses indígenas pela retomada de seus territórios tradicionais no Mato Grosso do Sul. A mensagem foi postada no Facebook, através da página de Aty Guasu, que é uma assembleia de deliberações dessas lideranças indígenas.
Clique na imagem para ler o agradecimento:
A ideia de usar o nome partiu da nossa querida companheira GleiceOliveira Guarani-Kaiowá, a primeira a adotar o nome e a primeira a incentivar-nos a fazer o mesmo. Em comentário postado em imagem publicada no Facebook, no dia 19 de outubro, Gleice assim nos conclamou:
"Amigos, adotei o nome dos GUARANI-KAIOWÁ como forma de expressar minha solidariedade a esse povo que, agora mais que nunca, necessita de apoio e proteção pois vive situação de ameaça à própria vida! Quem puder, faça o mesmo. Adote o nome, assine a petição de solidariedade, divulgue o que está acontecendo!!!!
Toda solidariedade em defesa dos índios que, ao longo da história, repetidas vezes, têm sido vítimas de violência, maus tratos, ausência de políticas públicas e descaso!"
Há um compromisso irrenunciável entre os Guarani e Kaiowá e o guardião/protetor da terra; há um pacto de diálogo e apoio recíproco e mútuo: os Guarani e Kaiowá protegem e gerenciam os recursos da terra, por sua vez, o guardião da terra vigia e nutre os Guarani e Kaiowá.
Os motivos da luta dos
Guarani e Kaiowá pelos territórios tradicionais, tekoha guasu
por Tonico Benites
A pretensão deste
artigo é fazer uma breve análise das motivações principais que levaram
historicamente e ainda levam hoje os Guarani e Kaiowá a retornarem aos
territórios tradicionais, tekoha guasu,
de onde foram expulsos e dispersos. Além disso, pretende-se ressaltar os
significados vitais dos territórios específicos reivindicados para os povos
Guarani e Kaiowá. Esses territórios tradicionais estão localizados nas margens
das bacias dos rios situados no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul.
Como é sabido, no
início da segunda metade do século XX, intensificou-se o processo de colonização
oficial do sul do atual estado do Mato Grosso do Sul, e inúmeras comunidades
Guarani e Kaiowá foram expropriadas e expulsas de seus territórios antigos, sendo,
na maioria dos casos, transferidas e confinadas nas Reservas Indígenas e/ou
Postos Indígenas do Serviço de Proteção dos Índios (SPI).Diante desse quadro, iniciativas
de articulação e luta de várias lideranças Guarani e Kaiowá para retornar aos
antigos territórios começaram a despontar no final da década de 1970.
Os grandes rituais
religiosos – jeroky guasu – foram
fundamentais para os líderes políticos e religiosos se envolverem nos processos
de reocupação e recuperação dos territórios tradicionais específicos.A atuação, ação e valorização
dos saberes Guarani e Kaiowá, rituais religiosos e a intermediação dos líderes
religiosos nos processos de reocupação e recuperação de parte dos territórios
tradicionais foram e são muito importantes para este povo. Nesse sentido, é
importante explicitar que as manifestações rituais e religiosas observadas em
situações de reocupação de territórios tradicionais expressam uma ação e
concepção indígena bem específica e inteiramente desconhecida dos não
indígenas, gerando diferentes reações e posições entre as diversas autoridades
envolvidas em conflitos fundiários, tais como, fazendeiros e instituições do
Estado brasileiro, e Justiça.
É relevante
considerar que os Guarani e Kaiowá sentem-se originários dos espaços
territoriais reivindicados, e que, nos últimos 30 anos, tendo sido privados da
possibilidade de se reassentarem nos seus territórios tradicionais e sobreviver
conforme seus usos, costumes e crenças, passaram a investir reiteradamente nas
táticas de recuperação deles.
Em relação ao
significado vital do território para o povo Guarani e Kaiowá é preciso observar
em detalhe o modo específico de relacionamento desses indígenas com os seres
invisíveis/guardiães (protetores/deuses) da terra, manifestados através de
cantos e rituais diversos dos líderes espirituais. O respeito a esses seres
humanos invisíveis e a forma de diálogo com eles marca uma diferença muito
importante em relação à percepção e ao uso dos recursos naturais da terra. Este
é um aspecto fundamental e determinante do relacionamento dos Guarani e Kaiowá
com os territórios antigos.Ao lutar pela recuperação dos territórios, já nas
terras reocupadas/retomadas, os Guarani e Kaiowá demonstram e acionam claramente a sua especificidade e
condição de pertencimento aos territórios de origem.
Importa observar que os Guarani e Kaiowá têm
ligação e conexão direta com os territórios específicos, considerando-se a si e
aos territórios como uma só família, dado que o território específico é visto
por esses indígenas como humano. Os Guarani e Kaiowá possuem um forte
sentimento religioso de pertencimento ao território específico, fundamentado em
termos cosmológicos, sob a compreensão religiosa de que os Guarani e Kaiowá
foram destinados, em sua origem como humanidade, a viver, usufruir e a cuidar
deste território específico, de modo recíproco e mútuo, portanto eles podem até
morrer para salvar a terra. Há um compromisso irrenunciável entre os Guarani e
Kaiowá e o guardião/protetor da terra, há pacto de diálogo e apoio recíproco e
mútuo: os Guarani e Kaiowá protegem e gerenciam os recursos da terra, por sua
vez, o guardião da terra vigia e nutre os Guarani e Kaiowá.
A compreensão dos espaços territoriais pelos Guarani e Kaiowá tem uma concepção cosmológica específica, sui
generis, e uma fundamentação cosmológica e histórica que se enraíza em tempos
passados. Assim, o processo de luta antiga pela reocupação e recuperação dos
territórios tradicionais é uma ação exclusivamente indígena interconectada aos
seres do cosmo Guarani e Kaiowá, ou seja, trata-se de uma concepção etnicamente
diferenciada, eles sentem profundamente a importância de retornar ao território
específico.
Dessa forma, a luta
de recuperação das antigas áreas ocupadas pelos Guarani Kaiowá é realizada por
meio de retorno ao território, caracterizado como um movimento pacífico e
político-religioso exclusivo. Isto é, trata-se de uma articulação política, comunitária e intercomunitária de lideranças religiosas Guarani e Kaiowá.
Nesse contexto, destaca-se o papel da Aty Guasu, uma assembleia geral realizada entre as lideranças políticas e religiosas dos Guarani e Kaiowá a partir do final de 1970. Decisões vitais que afetam a todos, como decisões sobre a recuperação de parte dos territórios antigos, por exemplo, são discutidas religiosamente e acatadas. A Aty Guasu é definida como o único foro
legítimo de discussão religiosa e de decisão articulada das lideranças
políticas e religiosas dos Guarani e Kaiowá.
Por fim, o que se deve
ressaltar, como conclusão parcial do que foi exposto, é a importância da
continuidade histórica da luta político-religiosa das lideranças Guarani e
Kaiowá.
Foto: Karolinne Medeiros
Tonico Benites é Guarani-Kaiowá, mestre e doutorando
em Antropologia Social do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro
(UFRJ).
O linguista e
narratólogo Álvaro Fernando Rodrigues da Cunha, que pesquisou as línguas dos indígenas
amazônicos da região do Nhamundá-Mapuera e do Alto Rio Guamá, identificou
semelhanças entre as narrativas dos índios e histórias do Velho Testamento da Bíblia.
Os resultados
desses estudos, que fizeram parte da pesquisa de doutorado do autor, constam do
livro Teoria de cruzamento em oralidade e escrituralidade,
recentemente publicado. Cunha realizou
cruzamentos entre as narrativas usando um método que ele afirma se tratar de
nova teoria para estudos na área de ciências humanas e sociais.
O pesquisador,
que defendeu sua tese de doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas (FFLCH) da USP, afirma que a teoria aplicada em seu estudo pode ser
ferramenta útil a outras áreas do conhecimento como direito, psicologia,
jornalismo, história, geografia, antropologia, dentre outras. Ela contribuiria para descrever e entender
mais profundamente a noção de cultura, hábitos fundamentais, comportamento,
valores, ideias e crenças característicos duma determinada coletividade, época
ou região.
Cunha
identificou similaridades entre as narrativas indígenas, inclusive temporais, e
17 narrativas bíblicas. “Tratando-se de povos isolados e que não possuem
escrita com a Bíblia é algo, no mínimo, intrigante”, considerou o linguista. Ele
ressalta que, no período em que conviveu com os índios, entre 2002 e 2005, estes
estavam praticamente isolados da civilização. “Não tenho receio de dizer que as
semelhanças podem ser atribuídas a um elo
perdido”, acredita.
Em 2004, o
linguista conviveu com os tenetehára, que habitam o Alto do Rio Guamá, no ramo
Ocidental da Amazônia. Entre eles, encontrou semelhanças com as narrativas do
Velho Testamento. “Já entre os mawayana, onde convivi por cerca de seis meses,
pude constatar 14 narrativas semelhantes”, narra o linguista.
Em livro
As
observações e análises de Cunha junto aos índios tiveram início quando ele
decidiu descrever em seu estudo de mestrado, também na FFLCH, a fonologia da
língua hakitía. Trata-se de uma língua de origem românica falada pela
comunidade judaico-marroquina no norte do Brasil. “A origem do idioma é da
Península Ibérica e foi mantida na Amazônia, quando judeus chegaram do Marrocos
atraídos pelo ‘ciclo da borracha’, nos séculos 18 e 19”, relata.
Tese descreve
cruzamentos e redefinição do Etos
Mais tarde,
já em seu doutorado, Cunha realizou o estudo Narrativa na (língua
judaico-marroquina) hakitía, orientado pelo professor Waldemar Ferreira
Netto e apresentado no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH.
O pesquisador buscava, então, suas próprias origens. Mas, ao se deparar com as
coincidências nas narrativas optou por analisá-las, principalmente porque tem
profundo conhecimento do Velho Testamento.
“Quando
afirmo se tratar de uma nova teoria é porque as análises convencionais são,
basicamente, unilaterais. Em meu estudo utilizei cruzamentos redefinindo o Etos
[traços característicos de um grupo, do ponto de vista social e cultural, que o
diferencia de outros], o que nos fez entender melhor as realidades das
narrativas”, descreve o linguista.
Outro fato
relevante foi a questão da temporalidade das narrativas. “Em geral, as
narrativas indígenas eram localizadas nas mesmas épocas das narrativas
bíblicas”, conta Cunha. Ao questionar os índios sobre onde aprenderam as
histórias, todos diziam ter aprendido com seus antepassados.
“Os tenetehára
contam que havia um povo perseguido e outro perseguidor. O povo perseguido só
poderia passar para o outro lado do rio (igarapé) se soubesse pronunciar, com
exatidão, a palavra ‘pirá’ (peixe), na língua dos perseguidores (mawayana)”,
exemplifica o linguista. “À medida que os índios perseguidos enfileiravam-se
para atravessar o rio (igarapé), os tenetehára lhes perguntavam como se falava
a palavra ‘peixe’. Os perseguidos pronunciavam ‘birá’, em vez de ‘pirá’. Só
neste dia os tenetehára mataram toda a tribo dos perseguidos”, descreve. Segundo
Cunha, trata-se da mesma história bíblica de Juízes 12:5 e 6 — Então lhe
diziam: Dize, pois, Chibolete; porém ele dizia: Sibolete; porque não o podia
pronunciar bem; então pegavam dele, e o degolavam nos vaus do Jordão; e caíram
de Efraim naquele tempo quarenta e dois mil.
“O próximo
passo é saber quais as astúcias que as narrativas orais escondem de nós”,
conclui o pesquisador.
Em sua Declaração dos XI Jogos dos Povos Indígenas, os índios repudiam serem tratados como pessoas sofredoras e miseráveis. Eles destacam que “a miséria e a pobreza humana estão nas cidades do homem branco”. E conclamam todas as esferas dos governos nacionais a que respeitem a natureza.
Essa declaração foi lida por Maria Aparecida Apinajé, no encerramento dos jogos, no dia 12 de novembro de 2011. Os jogos foram realizados em Porto Nacional (TO). Seguem o texto do documento (os grifos são nossos), link para histórico dos jogos e vídeos:
DECLARAÇÃO DO XI JOGOS DOS POVOS INDÍGENAS
Nós participantes dos XI Jogos dos Povos Indígenas, reunidos por uma semana aqui na beira do Rio Tocantins em Porto Nacional, declaramos o seguinte:
Primeiro agradecemos ao Grande Espírito, ao Criador das águas, das estrelas, do sol, do ar que respiramos e da vida.
Somos guerreiros de 38 Povos do Brasil e saímos de nossas comunidades com alegria, viajando até quatro dias para participar desse grande momento de celebração entre irmãos. Unidos pela proteção da Mãe Terra e da Natureza.
Como filhos da Terra, nosso compromisso é com a vida!
Por isso, recomendamos ao Governo do Brasil que escute a nossa voz, escute a voz das águas, escute a voz da terra.
Não aceitamos mais que nos tratem como povos sofridos ou miseráveis. A miséria e a pobreza humana estão nas cidades do homem branco. Choramos quando vemos crianças e velhos sem casa, sem comida e sem vida.
Agora que estamos terminando esse trabalho de integração dos Povos, agradecemos ao governo do Brasil, ao governo do Estado e ao governo municipal, mas principalmente ao povo irmão que nos recebeu nesse lugar. Jamais esqueceremos a alegria das mulheres, dos homens e de suas crianças que nos aplaudiram.
Aprendam a proteger essas águas e não deixem que a loucura do desenvolvimento continue a matar o futuro de seus filhos! Nós somos aliados de vocês!
Irmãos brancos e negros, somos aliados da paz.
Somos aliados de um Brasil forte. Um Brasil que mostre ao mundo que a qualidade de vida é um direito soberano da paz. Um Brasil que constrói seu futuro com equilíbrio ambiental e um desenvolvimento onde não haja ricos e pobres.
Quando chegarmos lá em nossas aldeias, vamos cantar, contar o que vimos aqui.
Sempre defenderemos nossas dignidades, nossos valores e nossas terras, pois Terra é Vida!
Neste 12 de outubro, Dia da Resistência Indígena, mais que nunca é preciso apoiar a luta dos povos indígenas, cada vez mais ameaçados pelo chamado “desenvolvimentismo” que se verifica na América do Sul, notadamente na Amazônia.
Assistimos, consternados, à construção de obras que os ameaçam terrivelmente - como, por exemplo, a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Brasil, e a rodovia que corta terras de reserva na Bolívia (TIPNIS) -, sua exposição a mineradoras, garimpos, especulação imobiliária, madeireiras, atividades do agronegócio transnacional, ausência governamental em relação à saúde e à demarcação de terras, além dos conflitos e dos preconceitos a que estão expostos diariamente.
Seguem vídeos das principais ocorrências do dia (a serem postados e atualizados no decorrer do dia).
Vídeo em reconhecimento aos povos originários e à nossa herança indígena:
Vídeo da repressão aos indígenas na Argentina, ocorrida quando de seu acampamento em protesto pacífico por seus direitos, no dia 11 de outubro de 2011:
Textos sobre alguns dos problemas atuais que ameaçam os indígenas brasileiros e sul-americanos:
Tendo em vista a grave ameaça que sofrem os povos indígenas do Xingu, com a possível e iminente construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte - que já foi objeto de repúdio pela OEA, através de pressão exercida pela comunidade brasileira e internacional, e do empenho do Ministério Público do Pará -, decidimos republicar aqui texto originalmente publicado no jornal Sampa News, em 1991, o qual, a nosso ver, apesar de antigo, tem bastante pertinência em face dessa questão, que afinal de contas, foi levantada em 1975, durante a vigência do regime militar no país:
Em seu artigo Amazônia Brasileira - Preâmbulo a uma discussão antropológica da questão indígena (fotocópia de Revista da USP sem dados de referência), a antropóloga Renate B. Viertler lembra-nos de que os índios do Brasil não interessam à historiografia oficial do país. O que se procura difundir é a falsa ideia de que os remanescentes das populações indígenas do Brasil estejam assimilados, compondo o grande quadro geral da “cultura brasileira”. Viertler, no entanto, adverte-nos sobre a inveracidade desse tipo de discurso. A prática, a pesquisa de campo, revela que os grupos indígenas do Brasil resistem, preservando suas identidades étnicas através de uma grande variedade de processos sócio-culturais próprios.
O fato é que essas falácias prestam-se para ocultar a ideologia imperialista dos “civilizados” e negar a existência de agudos conflitos entre “civilizados” e indígenas, no passado e no presente.
No que diz respeito aos livros didáticos adotados nas escolas de ensino público de todo o país - e também nas instituições particulares -, o indígena é tratado como elemento genérico, omitindo-se as diversidades culturais existentes entre os diferentes grupos tribais.
Imperdível a programação da TV Brasil, a partir do dia 21 de abril, às 24h: serão exibidos 16 documentários premiados na segunda edição do "Edital de apoioà produção de documentários etnográficos sobre o patrimônio cultural imaterial brasileiro" (Etnodoc 2009).
Baile do Carmo, de autoria de Daniel Eiji Hanai e direção de Shaynna Pidori, abrirá a mostra de filmes. Nesse documentário registram-se os preparativos para o famoso Baile do Carmo, representante de sólida manifestação da cultura negra em Araraquara SP e símbolo de resistência, celebrando a identidade afro-brasileira.
O próximo filme a ser exibido é Hoje tem alegria, umcurtade Fábio Meira,ganhador da 16ª. edição do "É tudo verdade - Festival Internacional de Documentários". Testemunha o cotidiano de três circos no norte e nordeste do Brasil, focando três personagens míticos da tradição circense brasileira: Índia Morena, mágico Alakasan e Ruy Raiol. Será apresentado dia 28 de abril.
Eis a sequência de filmes a serem exibidos, com sinopse divulgada por e-mail pela TV Brasil:
A boca do mundo -Exu no Candomblé - 05/05/2011, autoria e direção de Eliane Coster, propõe uma abordagem etnográfica e experimental sobre as múltiplas manifestações culturais de Exu, orixá/deus da religião afro-brasileira Candomblé. Traz depoimentos de Mãe Beata de Iemanjá, ialorixá do Rio de Janeiro, entre outras pessoas.
Quindim de Pessach - 12/05/2011 - de Viviane Lessa Peres e direção de Olindo Etevam, apresenta o encontro entre a cultura brasileira e a judaica, através da culinária, retratando o modo como esse saber foi transmitido pelas matriarcas judias às sua cozinheiras brasileiras, que acabaram por aprender também todos os costumes relacionados à comida judaica, além de acrescentarem a ela os sabores da culinária brasileira.
Dona Joventina - 19/05/2011 - de Clarice Kubrusly, que também dirige, juntamente com Milena Sá. Exibe as polêmicas “biografias” de Dona Joventina, boneca do maracatu "Estrela Brilhante". A escultura de madeira escura ficou durante 30 anos (1965-1996) sob a posse da pesquisadora Katarina Real, antes de ser doada ao acervo do Museu do Homem do Nordeste, em Recife.
João da Mata falado- 26/05/2011 - de Ana Stela Cunha, com direção de Vicente Simão Júnior e Ana Stela cunha. Os encantados, tema do documentário, são entidades que figuram nos Pajés – religião de matriz negro-africana praticada mais extensamente na borda oeste do Estado do Maranhão, Brasil. O filme centra a atenção na família de João da Mata, um encantado pertencente à linha dos “caboclos”, e que é conhecido por praticar curas (físicas ou espirituais). Essas definições são maleáveis e oscilam segundo a casa e a experiência de cada praticante/Pajé.
Palavras sem fronteira – tradições orais nos limites do Brasil - 02/06/2011 - com autoria e direção de Luciana Hartmann. Consiste em filme contadores de causos/cuentos que habitam a tríplice fronteira entre o Brasil, o Uruguai e a Argentina. São privilegiados os encontros entre os habitantes da região, muitos deles casais de diferentes nacionalidades, famílias ou grupos de amigos que em “rodas de causos” multiculturais revelam, através de suas histórias, as riquezas e peculiaridades que caracterizam o viver “na fronteira”.
Soldados da borracha - 09/06/2011 - autoria e direção de Cesar Garcia Lima. Revela que a maioria dos seringueiros que extraíam borracha na Amazônia para ajudar os Aliados, durante a Segunda Guerra Mundial, morreu sem nenhuma assistência na própria floresta que a propaganda de guerra divulgava como paraíso.
Assista à primeira parte desse documentário da TV Cultura sobre o mesmo tema:
Veja o curta-metragem de alunos do terceiro ano do ensino médio do Centro Educacional La Salle (234), com o objetivo de demonstrar em poucos minutos a importância do ciclo da borracha e do verdadeiro 'escravo do capital' em tal enredo, o seringueiro, que sofreu de exploração em parte de dívidas com o Coronel ou mais conhecido como Seringalista, dono do terreno ou fazenda destinada a extração da borracha.
No rastro - 16/06/2011 - com autoria e direção de Marcus Antonio Moura Tavares. Zé Valadão, de 96 anos é um dos últimos representantes de um tipo de sertanejo em extinção: os rastejadores. Ao lado dos irmãos Chagas, Assis e Antonio, já falecidos, transformou-se em verdadeira lenda na região. A palavra de um Valadão valia mais que a sentença de um juiz ou um informe de detetive. Se alguém passasse por eles na vida e deixasse alguma marca no pedregoso e duro chão nordestino, jamais esqueceriam. Hoje ainda trabalha em sua pequena roça de milho e na criação de algumas vacas e cabras, além de observar atentamente o progresso do neto e de um sobrinho nas artes e técnicas do rastejar.
Vento Leste - 23/06/2011- autoria e direção de Joel de Almeida. É um filme recheado de lirismo que mostra a viagem de dois dos últimos saveiros comerciais da Baía de Todos os Santos: o É da vida, que sai da tradicional localidade de Maragogipinho, carregado de cerâmicas, e o Sombra da lua, que sai de Maragogipe, carregado de frutas, verduras e carnes defumadas, ambos com destino a Salvador. Durante o trajeto, os mestres tripulantes revelam suas experiências de vida, fatos históricos e lendas da região.
Kusiwarã Jarãkõ – as marcas e criaturas de Cobra Grande - 30/06/2011 - de Dominique Tilkin Gallois e direção de Gianni Maria Puzzo. Cuida das formas de criação e recriação dos padrões gráficos que constituem um dos saberes valiosos ( juntamente com cantos, danças e diversas tecnologias) apropriados pelos Wajãpi em seus contatos com os donos da água e da floresta. Cobra-Grande, dono e controlador do universo aquático, está presente na vida cotidiana dos Wajãpi, que comentam, no filme, os modos adequados de se comportar e conviver com ele.
Lá do Leste - 07/07/2011 - de Carolina Caffé , que também dirige, junto de Rose Satiko Gitirana Hikiji. Street dance, grafite, rap e gospel. O filme mostra como a experiência periférica urbana tem um lugar central na produção dos artistas de Cidade Tiradentes, que cresceram junto com o distrito paulista e em suas obras dialogam com seus desafios e sonhos. A Cidade Tiradentes é o maior complexo de conjuntos habitacionais populares da América Latina, lugar marcado pela exclusão, com loteamentos clandestinos e favelas, no qual a população orquestra suas dificuldades com dinâmicas próprias de sociabilidade, moradia e apropriação do território.
Curandeiros do Jarê-14/07/2011 - de Camilla Dutervil e direção de Marcelo Abreu Góis. Mostra a história de Ademário, filho de santo do Jarê. Percorre o universo mítico da cura, da relação com a natureza e dos conhecimentos ancestrais que os curandeiros detêm sobre a medicina natural. O Jarê das Lavras Diamantinas existe somente na região da Chapada e é uma face do Candomblé muito pouco estudada e reconhecida no Brasil. Ademário, Ogan da Casa de Jarê de Pai Gil de Ogum, luta contra uma grave doença cardíaca que o faz iniciar uma jornada de fé e coragem em busca da cura. Durante seu caminho, o mundo físico e o espiritual se unem e as fronteiras das experiências terrenas são eliminadas, aproximando os vivos, os mortos e os encantados.
As escravas da Mãe de Deus - 21/07/2011 - de Decleoma Lobato Pereira e direção de Áurea Pinheiro, e Cássia Moura. Focaliza a folia popular “Escravas da Mãe de Deus da Piedade”, que ocorre na região de Igarapé do Lago, distrito do Município de Mazagão, no Amapá, em louvor a Nossa Senhora da Piedade. Busca-se uma composição entre palavras, gestos e sons, uma composição de sons originais das rezas, ladainhas, batuques e paisagem natural, a partir dos recursos da etnografia e da música, sem perder de vista uma verossimilhança com o ritual e suas características originais.
Eu tenho a palavra - 28/07/2011 - autoria e direção de Lilian Solá Santiago. Uma viagem linguística em busca das origens africanas da cultura brasileira. O antigo reino do Congo foi a origem da maioria dos africanos escravizados no Brasil que, no cativeiro, criaram diversos dialetos para que pudessem se comunicar livremente. A “língua do negro da Costa” é um desses dialetos, ainda preservado na comunidade remanescente de quilombo de Tabatinga (Bom Despacho, MG). O idioma é composto por um português rural do Brasil Colônia e línguas do grupo Banto, com predomínio do quimbundo e mbundo, faladas até hoje em Angola.
Mbaraká – a palavra que age - 04/08/2011- de Spensy Kmitta Pimentel e direção de Edgar Teodoro da Cunha. Baseado em entrevistas com os xamãs nhanderu e em registros dos seus cantos, danças e cerimônias, o filme aborda o universo dos cantos xamânicos por meio dos aspectos performáticos da palavra, da sonoridade, do gesto, da dimensão onírica e de volição mobilizada pelo canto. Se a palavra pode ser história, mito e narrativa, entre os Guarani-Kaiowá ela também é poesia e profecia: um canto de esperança em um futuro melhor.
Reproduzimos, com adaptações, interessante artigo de divulgação científica de Glenda Almeida, da Agência USP de Notícias, intitulado Adolescente que conhece suas origens é agente político, publicado em 2/12/2010:
Alunos que não são ensinados a relacionar o conteúdo dos livros à história de sua própria comunidade não se sentem pertencentes à humanidade, facilitando a aceitação de rótulos e estigmas como o de “favelado qualquer”.
Pesquisa da psicanalista Maíra Ferreira, realizada na Faculdade de Educação (FE) da USP, demonstrou que é possível mudar esse quadro através do uso de elementos do cotidiano dos alunos, como a música, a poesia e os desenhos, para que eles possam reconhecer elos com seus antepassados. Desse modo, tornam-se capazes de se afirmarem como verdadeiros sujeitos políticos “da sociedade” e “na sociedade”.
No início de seu trabalho na escola pública da favela Real Parque (São Paulo/SP), Ferreira percebeu que, nos horários vagos entre as aulas, os adolescentes, amantes do rap, rimavam, improvisavam e desenhavam com muita facilidade, demonstrando capacidade crítica, inclusive em relação aos temas escolhidos em suas artes. Além disso, o dom da oralidade também chamou atenção da pesquisadora. Contudo, ao mesmo tempo em que apresentavam tão rica manifestação cultural, recusavam suas origens no ambiente escolar.
Segundo Ferreira, essa recusa denuncia a “presença e permanência de políticas discriminatórias brasileiras desde a época dos cativeiros”. A escola, ao não reconhecer e contextualizar a importância da história da comunidade que atende, e não a relacionando com o presente dos alunos, “perpetua a formação social e cultural do preconceito brasileiro”.
Os estudantes da Favela Real Parque são herdeiros culturais de famílias afro-brasileiras e indígenas Pankararu, oriundas do sertão de Pernambuco, que migraram a partir da década de 1950 para São Paulo, principalmente para trabalharem na construção do Estádio do Morumbi. Tendo em vista essa origem dos alunos, a pesquisadora procurou pelas possíveis relações entre a capacidade de rimar e improvisar do rap, e as produções culturais do cordel e dos repentes nordestinos.
Registros da viagem de Ferreira ao Nordeste, onde conheceu o cordel e o repente:
Em busca dessas evidências de relação entre culturas, Ferreira para a região do Brejo dos Padres em Pernambuco, onde pesquisou o cordel e os repentes sertanejos, como a cantoria de viola e o coco de embolada, expressões claras da tradição da oralidade, tão marcante no rap dos estudantes.
Com uma filmadora na mão, a pesquisadora andou pelas ruas nordestinas ouvindo e gravando declamações espontâneas: improvisos poéticos de farmacêutico, sapateiro, manicure, dentista, padre, crianças e idosos. “Em uma cidade chamada São José do Egito (PE) ouvi o seguinte ditado: Aqui quem não é poeta é louco e quem é louco faz poesia”, disse a pesquisadora.
Vídeos da pesquisa de campo em São José do Egito, onde a poesia está em todos os lugares:
Segundo a psicanalista, mesmo diante da violência social, a miscigenação étnico-social brasileira apresenta sua resistência: “das rodas de jongos e capoeira aos improvisos dos repentes e do rap está o movimento de resistência, apropriação e criatividade frente às políticas de discriminação existentes desde a escravidão”. Essa constatação é a prova de que durante a história do País não houve aniquilação da cultura dos povos que sofreram com tais políticas, e sim recombinação, reinvenção, recriação, ou seja, está aí um outro tipo de “marca humana” — no caso, o desejo de construir e não o de destruir.
Contudo, a “atualidade da escravidão brasileira” ainda aparece no cotidiano do brasileiro. De acordo com a pesquisadora, “a formação social brasileira está longe de elaborar e superar esse trauma que permeia as instituições de ensino e os espaços jurídicos do país”. Para isso, é essencial e possível ensinar aos alunos que eles podem e devem “atualizar as suas tradições” a fim de se apropriarem do passado, para construírem seus projetos futuros.
Um dos alunos traduziu muito bem o pensamento de Maíra Ferreira: “Já sei, professora. É pegar carona na tradição”.
Estão disponíveis para baixar 10 vídeos dos programas educativos “Índios no Brasil”, produzidos para adequar o currículo escolar à diversidade cultural. Esses vídeos, com legendas em português e inglês, apresentam depoimentos de indígenas de nove povos dispersos no território nacional, mostrando como vivem e o que pensam.
Por exemplo, o vídeo Primeiros contatos, traz a seguinte resenha no site que o disponibiliza, Vídeo nas Aldeias:
O Brasil foi descoberto ou invadido? O filme de Humberto Mauro de 1940 dá a sua versão sobre o Descobrimento do Brasil. Mas os índios são unânimes em afirmar que o país foi invadido porque eles já estavam aqui. Dependendo do ponto de vista de cada um, existem várias versões da história do Brasil, e aqui os índios contam as suas. A cartilha de história das escolas indígenas do Acre, por exemplo, divide a história do Brasil em quatro períodos: o tempo das malocas, antes da chegada de Cabral; o tempo das correrias, quando os índios foram caçados à bala para a ocupação dos seus territórios; o tempo do cativeiro, quando eles foram usados como mão de obra escrava no corte de seringa; e finalmente o tempo dos direitos, quando finalmente conquistaram o direito à terra e à sua cultura própria.
Além desses vídeos em domínio público, o Vídeo nas Aldeias (VNA), comercializa outros vídeos produzidos pelos próprios indígenas. Esse projeto tem como objetivo “apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e seus patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos audiovisuais e de uma produção compartilhada com os povos indígenas com os quais o VNA trabalha”.