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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Lições da greve dos professores das universidades federais


Relato da Assembleia dos docentes da  Universidade Federal de Goiás (UFG), realizada no dia 14/08/2012, para decidir rumos da greve dos professores da instituição.

Comovente, pedagógico e histórico!

por Franck Tavares

Instantes atrás, encerrou-se uma das maiores assembleias docentes do Brasil contemporâneo, prestigiada por quase 700 pessoas. Ali, de um lado estavam o Governo, a Andifes e um sindicato que se comunica com suas bases por intermédio das chefias, descumpre acordos subscritos por sua presidente e se filia a uma federação cartorial, composta por agentes de partidos governistas, cuja principal figura pública recebe recursos do Governo Federal para redigir pretensos estudos e relatórios que desfavorecem a categoria em nome da qual insiste, ilegitimamente, em falar. De outro lado, docentes que esperam por negociar condições dignas e razoáveis de trabalho, como critérios claros de promoção e respeito ao mandamento constitucional da autonomia universitária.

A primeira votação concentrou-se sobre uma questão procedimental de ímpar relevância. Ocorre que os representantes do Governo, sindicato e demais setores autoritários propuseram que não deveriam ocorrer exposições ou interlocuções sobre os rumos do movimento grevista e as propostas em discussão. Entendiam que, sem qualquer processo discursivo prévio, dever-se-ia efetivar uma sumária votação, binariamente estruturada em termos de greve ou não greve. Em suma, a lógica Arena/MDB ou, mais precisamente, o binarismo do Senado Romano, onde nunca houve nada semelhante a uma democracia, era a escolha procedimental daqueles que queriam calar as vozes de quem é autônomo em relação ao Governo ou às burocracias sindicais. Por estreita margem, inferior a 30 votos, venceu a democracia, assim entendida como livre troca de ideias e opiniões entre pessoas que se reconhecem como mutuamente racionais e iguais.

A segunda votação foi a prova empírica de que a democracia se forja na interlocução e de que a censura da pluralidade de entendimentos é o cemitério da legitimidade dos processos decisórios. Já assegurada a ampla participação dos presentes, não apenas por meio do mecânico levantar de braços pressuposto no voto, mas mediante a tão humana prática do uso da linguagem como instrumento para a interação com o outro, decidiu-se sobre a continuidade da greve. Após a apresentação de argumentos, dados e informações, inúmeros professores, a princípio contrários ao movimento paredista, mudaram de entendimento e, assim, alcançou-se ampla maioria, de 379 votos contra 267, em favor do prosseguimento das lutas reivindicatórias.

A terceira votação demonstrou de que lado está a razoabilidade e a ponderação, concedendo-se mandato para que o Comando de Greve apresente contra-proposta ao absurdo "acordo" firmado entre os braços ministerial e sindical de uma única e integral parte, o Governo. Sim, disseram os docentes, estamos dispostos a abdicarmos de parte das nossas reivindicações, queremos negociar e, para tanto, sabemos que o único meio efetivo é a continuidade da greve, uma vez que jamais fomos respeitados pelo Poder Executivo em contexto diferente.

Não é fácil lutar contra o Governo, a Andifes, o Proifes, a Adufg e seus mais recentes aliados, as chefias de algumas unidades, com quem, pasme-se, a entidade sindical tem contado para recrutar pessoas para as suas esvaziadas reuniões, em que se ignoram as prestigiadas, democráticas e amplas assembleias. Mas somos a maioria e, hoje, venceu o livre debate, venceu a democracia e, sobretudo, venceu a autonomia dos docentes, cujo destino não é definido por aparatos burocráticos que não falam em nosso nome. É importante que todo o Brasil saiba: o cartório Proifes celebrou um acordo nulo juridicamente e ilegítimo politicamente, uma vez que se fundamenta em supostas “15 reivindicações” que jamais foram submetidas à aprovação junto às bases dos sindicatos filiados a essa federação, como exige o artigo 4o da Lei de Greve. Aqui na UFG, aliás, o cartório que diz falar em nosso nome foi expressamente desautorizado a nos representar em inúmeras ocasiões.

Outra bela lição da assembleia desta tarde nos foi ministrada pelos estudantes. Foi engrandecedor e pedagógico ver, minutos após a fala de um professor que defendia o fim sumário da greve - sem debates ou concessão do direito de voz aos presentes - em nome do superior interesse dos "nossos prejudicados alunos", escutar a lúcida exposição de um representante do movimento estudantil, a lembrar que também os discentes estão em greve e que, em nome deles, falam as respectivas representações, antes de autoritários professores, que acreditam ser a voz de uma juventude independente e firme, de quem jamais receberiam mandato.

Amanhã, seguimos para um protesto em Brasília.

Queremos negociar. Temos contraproposta e muita sensatez.

A greve é forte! A luta é agora.

Francisco Mata Machado Tavares (Franck) é professor da FCS/UFG

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Reitoria comprometida com a Educação apoia grevistas e conclama governo a negociar


A Reitoria da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), num exemplo de respeito ao ensino público e aos valores democráticos, emitiu nota pública, assinada pelo reitor Thompson Fernandes Mariz, apoiando o movimento grevista docente e conclamando o governo federal a reabrir negociações com os grevistas.

Clique na foto a seguir para ler a nota na íntegra.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Um pedido de exoneração ao PT patrão


O PT como patrão

Por César Augusto Brod

“Orientação sobre a folha de ponto dos servidores em greve
Informo que, seguindo orientação superior do MP, os grevistas deverão ter os pontos cortados, desta forma não deverá constar nenhuma observação na folha de ponta dos servidores que estão de greve e não registraram o ponto. Já aqueles servidores que estão de greve e mesmo assim registraram o ponto deverão ter seus pontos cortados (anulados) já que não trabalharam.

Quanto aos servidores que estão trabalhando normalmente e que não puderam trabalhar no dia 5 de julho por causa da greve dos ônibus podem ter seu dia abonado, código 05.”

Sou coordenador geral de inovações tecnológicas do departamento de sistemas de informação da secretaria de logística e sistemas de informação do ministério do planejamento, orçamento e gestão do governo do Brasil. Estou neste cargo desde setembro de 2011. Hoje comunico, publicamente, meu pedido de exoneração.

Todos sabem qual é meu salário graças à Lei de Acesso à Informação. Preciso deste salário e, de fato, tenho orgulho em merecê-lo. Mas a partir do momento em que tenho que ferir meus princípios para manter minha remuneração, meus princípios sempre ganharão o jogo, independente do que virá depois.

Trabalho, há bastante tempo, com o conhecimento livre e modelos de negócios baseados nisso. Em Porto Alegre, no final dos anos 1990, tive o prazer de ver um projeto de governo crescer levando em conta a crença em que a liberdade ampla para todas as formas de conhecimento era um fator gerador de inovação tecnológica e de criação de emprego e renda. Apoiei esse projeto mas nunca integrei nenhum quadro do governo até setembro de 2011, quando assumi o cargo acima mencionado, e passei a ser o responsável pelo Portal do Software Público Brasileiro, pela Infraestrutura Nacional de Dados Abertos, além de outras atividades.

Não foi fácil, vindo da iniciativa privada e há mais de doze anos como empresário, aprender a hierarquia e a burocracia que são parte de um emprego público. Aliás, esse é um aprendizado constante. Mas segui trabalhando com minha paixão: liberdade de conhecimento como geração de inovação e riqueza.

No decorrer de meu trabalho deparei-me com a greve do funcionalismo federal, à qual aderiram muitos dos que estavam sob minha coordenação. Enfrentar uma greve como executivo público foi algo totalmente inédito para mim. Acompanhei greves desde o tempo de meu avô, no surgimento do PT. Toda a articulação para as greves, para a criação de uma força que mudasse o estado, conscientizou uma população que colocou o PT no poder. Mas o PT patrão parece não ter aprendido com sua própria história. O PT patrão apenas aprimora as táticas de pressão psicológica e negociação questionável daqueles com os quais negociou na época em que a greve era sua.


O PT patrão virou governo, melhorou o país e acha que não depende mais da máquina que sustenta o estado. O PT patrão, que fez muito pela nação, tem a certeza de que vai muito bem sozinho. E está indo mesmo!

Eu espero que nosso país siga melhorando, mas estou nele para mudá-lo e não para cumprir ordens com as quais não concordo. Como coordenador, jamais cortarei o ponto daqueles que trabalham comigo e estão em greve. Independente da greve, eles cumpriram seus compromissos civis sempre que necessário. E, na greve, cultivaram ainda mais sua união na crença da construção de um Brasil melhor.

 
César Augusto Brod é responsável pela Coordenação Geral de Inovação Tecnológica da Secretaria de Logística e Tecnologia da Informação do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão





sábado, 16 de junho de 2012

Posição da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis da Unifesp sobre a greve dos estudantes e a repressão da PM

Segue o pronunciamento do Prof. Luiz Leduíno de Salles Neto, Pró-Reitor de Assuntos Estudantis da Unifesp, sobre a greve dos estudantes e a nota pública dessa Pró-Reitoria a respeito da atuação da Polícia Militar no campus de Guarulhos (os grifos são nossos). Abaixo destes textos, seguem os vídeos da repressão policial do dia 14 de junho e da reintegração de posse do dia 6 de junho, feita Pelotão de Choque da PM de São Paulo.

Pronunciamento feito na reunião do Conselho Universitário da UNIFESP realizado no dia 13 de junho de 2012
                 
Prezado Professor Albertoni, presidente do Consu, Prezados Conselheiros e Conselheiras, Prezados membros da Comunidade que nos assistem.

Gostaria de me pronunciar sobre a greve estudantil na Unifesp. Já nos reunimos com a comissão de diálogo dos estudantes do campus Guarulhos, com os comandos de greve dos campi São Paulo e Diadema, e estamos agendando a primeira reunião com o comando de greve do campus Osasco.

Na nossa opinião, todas as pautas de reivindicações têm pontos muito relevantes e que visam à melhoria das condições de permanência, ensino, pesquisa e extensão em nossa universidade.

As greves em curso não são apenas legítimas, mas também compreensíveis. Com efeito, existem dificuldades na infraestrutura em praticamente toda a universidade. E creio não ser justo e educativo responsabilizar os órgãos de controle e fiscalização, ou mesmo a legislação, pela crise. Tampouco concordo que o REUNI, como programa de Estado, tenha sido um equívoco, muito pelo contrário, o Brasil precisava desse aumento substancial de vagas públicas no ensino superior e precisa ainda mais.

Como cidadãos brasileiros, devemos saudar o fortalecimento do ministério público, do tribunal de contas da união (TCU) e da controladoria geral da união (CGU). Estamos do mesmo lado. Como gestores, contamos com o inestimável auxílio da Advocacia Geral da União (AGU). Realmente, não é fácil ser gestor público, mas felizmente temos um quadro de técnicos administrativos extremamente competente. O que precisamos é de uma urgente e exponencial ampliação desse quadro. Essa pauta também é de todos, creio.

Também não é justo dizer que movimentos têm interesses partidários: não corresponde à realidade. Podem existir pessoas filiadas a partidos, como em todas as instâncias: os partidos políticos são legítimos e legais em nosso país, após uma dura luta política, onde muitos pagaram com a própria vida. Vale observar que esse egrégio Conselho Universitário escolheu, como representantes da comunidade externa, duas conhecidas lideranças partidárias de São Paulo.

Outro argumento que ouço e considero inoportuno, é de que “no tempo do governo FHC era muito pior”. Primeiro, não devemos nivelar por baixo as políticas educacionais. Segundo, o povo brasileiro derrotou o projeto de sucateamento da educação e do serviço público nas últimas três eleições presidenciais. Assim, o que se exige, é que o governo atual cumpra o mandato dado nas urnas.

Não devemos, assim, esperar que os estudantes aceitem condições desfavoráveis de estudo. Eles lutam por um direito! Mais do que esclarecimentos sobre a legislação, sobre a lei 8666, que não é a única responsável pelos atrasos na obras, precisamos ser sinceros, precisamos dar e mostrar encaminhamentos concretos. Mais do que esclarecer como se dá o orçamento da universidade, precisamos permitir que a comunidade universitária participe, que todos sejam atores do planejamento orçamentário.

Por fim, ressalto que, baseado nos valores da PRAE, em especial o compromisso com a democracia, e o respeito à diversidade intelectual, artística, social e política, não concordamos com a repressão a nenhum movimento reivindicatório, a nenhum ato político, a nenhuma opinião política, a nenhuma pessoa. Apostamos no diálogo como único meio para solução de uma crise.

Nenhum dos lados deve abdicar da mesa de negociação.

Agradecemos críticas e sugestões - estamos aprendendo fazendo, pautados nos princípios expostos. Muito obrigado.

Luiz Leduíno de Salles Neto, Pró-reitor de Assuntos Estudantis da Unifesp


Nota pública da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (em 15 de junho de 2012)

Frente à ação policial ocorrida no campus Guarulhos da Unifesp no dia 14 de junho de 2012, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) manifesta a toda comunidade acadêmica e a toda sociedade o veemente repúdio à opção de tratar as questões universitárias, por mais complexas e controversas, por meio da violência.

Ressaltamos que são valores da PRAE o compromisso com a democracia e o respeito à diversidade intelectual, cultural, social e política.

Moção de apoio à gestão da atual Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis, por sua postura democrática frente à greve estudantil e contrária à repressão da PM #ficaleduino

Vídeo mostrando a repressão da Polícia Militar contra os estudantes, no dia 14 de junho


Imagens da reintegração de posse, no dia 6 de junho


No dia 24 de maio, os alunos, em assembleia geral, haviam deliberado pela ocupação, objetivando o atendimento de suas pautas. Foi a segunda ocupação da Diretoria Acadêmica do Campus Guarulhos durante a greve, que se estende desde 22 de março de 2012.  A primeira reintegração de posse foi negada pela 1ª Vara da Justiça Federal em Guarulhos, determinando o prazo de cinco dias para que a Unifesp comprovasse as providências adotadas, desde 2010, para melhorar o campus de Guarulhos.

Em 6 de junho, 46 estudantes foram detidos e levados à Superintendência da Polícia Federal, na Lapa, em São Paulo, onde permaneceram presos por 13 horas. A reintegração de posse foi cumprida, sem que a Unifesp se pronunciasse oficialmente ao corpo estudantil sobre as melhorias realizadas na campus desde a greve de 2010. Devido à falta de pronunciamento da Reitoria, os estudantes deliberaram que permaneceriam na ocupação, não aceitando a decisão judicial e aguardariam uma posição oficial da Universidade, que não compareceu perante os estudantes no momento da reintegração de posse.

Comunicado dos estudantes a respeito dos fatos:
Nota da ocupação à sociedade brasileira


Abaixo-assinado Nós somos a maioria! Unifesp sem violência! Apoio aos estudantes!
Para:Alunos, professores universitários, sociedade civil
Diante dos últimos acontecimentos na Unifesp Guarulhos, que respondeu com truculência às manifestações dos estudantes, viemos à público afirmar ao professor Walter Albertoni, Reitor da Unifesp, que sim, nós somos a maioria! Somos professores, pesquisadores, jornalistas, mães, pais, trabalhadores que são contra a violência na Universidade Pública. A sociedade que é contra a violência é a maioria. A sociedade que é plural, democrática e para todos é a maioria. Nós somos contra respostas violentas à oposição e à manifestações, ainda que estas manifestações sejam de uma minoria! Nada justifica a violência! Vivemos em uma democracia e muitos morreram em nome da liberdade de expressão, muitos lutaram para que todos os grupos, maioria ou minoria, pudessem manifestar suas posições. Por isso, professor Albertoni, nós, a maioria, pedimos o afastamento imediato do professor Marcos Cezar Freitas da direção do campus de Guarulhos e abertura de uma sindicância para apurar suas ações truculentas! 



sexta-feira, 15 de junho de 2012

A greve das universidades federais e a questão ambiental em fotos de protesto


A greve dos professores, técnicos administrativos e estudantes das universidades federais, já em curso em 52 instituições do país, coincide com o momento em que polêmicas obras do governo federal estão sendo levadas a efeito e questionadas por movimentos ambientalistas e de atingidos.

As fotos a seguir (compartilhadas no Facebook) foram tomadas durante a passeata das universidades em greve no Rio de Janeiro, ocorrida no último dia 12 de junho, no centro dessa cidade. Nelas se vê o questionamento aos projetos por seus impactos socioambientais e pelo seu custo aos cofres, em detrimento de maior aplicação de verbas na educação pública.



 
Veja também o vídeo produzido pelo coletivo Greve, Grave, Groove, formado por alunos da Escola de Comunicação da UFRJ, expondo as razões da greve:

Greve, Grave, Groove from Greve Groove on Vimeo.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A greve das universidades federais e postura do Governo Federal #GreveFederais2012


O professor Roberto Leher, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz uma análise do comportamento do Governo Federal frente à greve dos docentes das instituições federais de ensino superior (IFES) - que se estende há dez dias -, procurando demonstrar que o Governo almeja impor ao país um modelo de universidade atrelada a interesses privados, que ele chama de “universidade de serviços”: “universidade como organização de suporte a empresas, em detrimento de sua função pública de produção e socialização de conhecimento voltado para os problemas lógicos e epistemológicos do conhecimento e para os problemas atuais e futuros dos povos.” Neste contexto pretendido pelo Governo, o professor teria seu papel social também alterado, passando à categoria de empreendedores.

Acompanhe a argumentação de Leher (os grifos são nossos).

O governo Dilma, a greve nacional dos docentes e a universidade de serviços

por Roberto Leher (UFRJ)

A longa sequencia de gestos protelatórios que levaram os docentes das IFES a uma de suas maiores greves, alcançando 48 universidades em todo país (28/05), acaba de ganhar mais um episódio: o governo da presidenta Dilma cancelou a reunião do Grupo de Trabalho (espaço supostamente de negociação da carreira) do dia 28 de maio que, afinal, poderia abrir caminho para a solução da greve nacional que já completa longos dez dias. Existem algumas hipóteses para explicar tal medida irresponsavelmente postergatória:

(i) a presidenta – assumindo o papel de xerife do ajuste fiscal – cancelou a  audiência pois, em virtude da crise, não pode negociar melhorias salariais para os docentes das universidades, visto que a situação das contas públicas não permite a reestruturação da carreira pretendida pelos professores;

(ii) apostando na divisão da categoria, a presidenta faz jogral de negociação com uma organização que, a rigor, é o seu espelho, concluindo que logo os professores, presumivelmente desprovidos de capacidade de análise e de crítica, vão se acomodar com o jogo de faz de conta, o que permitiria o governo Dilma alcançar o seu propósito de deslocar um possível pequeno ajuste nas tabelas para 2014, ano que os seus sábios assessores vindos do movimento sindical oficialista sabem que provavelmente será de difícil mobilização reivindicatória em virtude da Copa Mundial de Futebol, “momento de união apaixonada de todos os brasileiros”, e

(iii) sustentando um projeto de conversão das universidades públicas de instituições autônomas frente ao Estado, aos governos e aos interesses particularistas privados em organizações de serviços, a presidenta protela as negociações e tenta enfraquecer o sindicato que organiza a greve nacional para viabilizar o seu projeto de universidade e de carreira que ‘resignificam’ os professores como docentes-empreendedores, refuncionalizando a função social da universidade como organização de suporte a empresas, em detrimento de sua função pública de produção e socialização de conhecimento voltado para os problemas lógicos e epistemológicos do conhecimento e para os problemas atuais e futuros dos povos.

Em relação a primeira hipótese, a análise do orçamento 2012[1] evidencia que o gasto com pessoal segue estabilizado em torno de 4,3% do PIB, frente a uma receita de tributos federais de  24% do PIB. Entretanto, os juros e o serviço da dívida seguem consumindo o grosso dos tributos que continuam  crescendo acima da inflação. Com efeito, entre 2001 e 2010 os tributos cresceram 265%, frente a uma inflação de 90% (IPCA). Conforme a LDO para o ano de 2012, a previsão de crescimento da receita é de 13%, porém os gastos com pessoal, conforme a mesma fonte, crescerá apenas 1,8% em valores nominais.

O corte de R$ 55 bilhões em 2012 (mais de 22% das verbas do MCT) não é, obviamente, para melhorar o Estado social, mas, antes, para seguir beneficiando os portadores de títulos da dívida pública que receberam, somente em 2012, R$ 369,8 bilhões (até 11/05), correspondente a 56% do gasto federal[2].

Ademais, em virtude da pressão de diversos setores que compõem o bloco de poder, o governo Federal está ampliando as isenções fiscais, como recentemente para as corporações da indústria automobilística, renúncias fiscais que comprovadamente são a pior e mais opaca forma de gasto público e que ultrapassam R$ R$ 145 bilhões/ano. A despeito dessas opções em prol dos setores dominantes, algumas carreiras tiveram modestas correções, como as do MCT e do IPEA.

Em suma, a hipótese não é verdadeira: não há crise fiscal. Os governos, particularmente desde a renegociação da dívida do Plano Brady (1994), seguem priorizando os bancos e as frações que estão no núcleo do bloco de poder (vide financiamento a juros subsidiados do BNDES, isenções para as instituições de ensino superior privadas-mercantis etc.). Contudo, os grandes números permitem sustentar que a intransigência do governo em relação a carreira dos professores das IFES não se deve a falta de recursos públicos para a reestruturação da carreira. São as opções políticas do governo que impossibilitam a nova carreira.

Segunda hipótese. De fato, seria muita ingenuidade ignorar que as medidas protelatórias objetivam empurrar as negociações para o final do semestre, impossibilitando os projetos de lei de reestruturação da carreira, incluindo a nova malha salarial e a inclusão destes gastos públicos na LDO de 2013. O simulacro de negociações tem como atores principais o MEC, que se exime de qualquer responsabilidade sobre as universidades e a carreira docente, o MPOG que defende a conversão da carreira acadêmica em uma carreira para empreendedores e, como coadjuvante, a própria organização pelega que faz o papel dos truões, alimentando a farsa do jogral das negociações.

Terceira hipótese. É a que possui maior lastro empírico.  As duas hipóteses anteriores podem ser compreendidas de modo mais refinado no escopo desta última hipótese. De fato, o modelo de desenvolvimento em curso aprofunda a condição capitalista dependente do país, promovendo a especialização regressiva da economia. Se, em termos de PIB, os resultados são alvissareiros, a exemplo dos indicadores de concentração de renda que alavancam um seleto grupo de investidores para a exclusiva lista dos 500 mais ricos do mundo da Forbes, o mesmo não pode ser dito em relação a educação pública.

Os salários dos professores da educação básica são os mais baixos entre os graduados[3] e, entre as carreiras do Executivo, a dos docentes é a de menor remuneração. A ideia-força é de que os docentes crescentemente pauperizados devem ser induzidos a prestar serviços, seja ao próprio governo, operando suas políticas de alívio à pobreza, alternativa presente nas ciências sociais e humanas ou, no caso das ciências ditas duras, a se enquadrarem no rol das atividades de pesquisa e desenvolvimento (ditas de inovação), funções que a literatura internacional comprova que não ocorrem (e não podem ser realizadas) nas universidades[4].

A rigor, em nome da inovação, as corporações querem que as universidades sejam prestadoras de serviços diversos que elas próprias não estão dispostas a desenvolver, pois envolveriam a criação de departamentos de pesquisa e desenvolvimento e a contratação de pessoal qualificado.
O elenco de medidas do Executivo que operacionaliza esse objetivo é impressionante: Lei de Inovação Tecnológica, institucionalização das fundações privadas ditas de apoio, abertura de editais pelas agencias de fomento do MCT para atividades empreendedoras. Somente nos primeiros meses deste ano o Executivo viabilizou a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, um ente privado, que submete os Hospitais Universitários aos princípios das empresas privadas e aos contratos de gestão preconizados no plano de reforma do Estado (Lei nº. 12.550 , 15 de dezembro de 2012), a Funpresp (Fundação de Previdência Complementar dos Servidores Públicos Federais), que limita ao teto de R$ 3.916,20, medida que envolve enorme transferência de ativos públicos para o setor rentista e que fragiliza, ainda mais, a carreira dos novos docentes, pois, além de não terem aposentadoria integral, não possuirão o FGTS, restando como última alternativa a opção pelo empreendedorismo que ilusoriamente (ao menos para a grande maioria dos docentes) poderia assegurar algum patrimônio para a aposentadoria. 

Ademais, frente à ruina da infraestrutura, os docentes devem captar recursos por editais para prover o básico das condições de trabalho. Por isso, nada mais coerente do que a insistência do Executivo em uma carreira que converte os professores em empreendedores que ganham por projetos, frequentemente ao custo da ética na produção do conhecimento[5].

Os operadores desse processo de reconversão da função social da universidade pública e da natureza do trabalho e da carreira docentes parecem convencidos de que já conquistaram os corações e as mentes dos professores e por isso apostam no impasse nas negociações. O alastramento da greve nacional dos professores das IFES, o vigoroso e emocionante apoio estudantil a essa luta sugerem que os analistas políticos do governo Federal podem estar equivocados. A adesão crescente dos professores e estudantes ao movimento comprova que existe um forte apreço da comunidade acadêmica ao caráter público, autônomo e crítico da universidade. E não menos relevante, de que a consciência política não está obliterada pela tese do fim da história[6].

A exemplo de outros países, os professores e os estudantes brasileiros demonstram coragem, ousadia e determinação na luta em prol de uma universidade pública, democrática e aberta aos desafios do tempo histórico!

Rio de Janeiro, 27 de maio de 2012
Notas:
[1]http://www.senado.gov.br/noticias/agencia/infos/info_orcamento_para_2012/ORCAMENTO_PARA_2012.html
[2] http://www.auditoriacidada.org.br/
[3] http://oglobo.globo.com/educacao/professor-ainda-pior-salario-4954397
[4] Mansfield, Edwin 1998 Academic research and industrial innovation: An update of empirical findings em Research Policy 26, p. 773–776
[5] Charles Ferguson, A corrupção acadêmica e a crise financeira, disponível em: http://noticias.bol.uol.com.br/economia/2012/05/27/a-corrupcao-academica-e-a-crise-financeira.jhtm
[6] .
Marcelo Badaró Mattos, Algo de novo no reino das Universidades Federais?

Fonte (sem as notas): Jornal Dia a Dia